Quase 40% dos indígenas na Amazônia Legal vivem sem acesso adequado à água
Análise do Censo 2022 mostra 27% dependem de rios, lagos e igarapés; Munduruku é um dos mais afetados

Quase 40% da população indígena em terras indígenas na Amazônia Legal não tem acesso adequado à água.
Na região, 27,38% estão conectados à rede geral de distribuição e 34,29% usam poços, fontes, nascentes ou minas; 27% dependem de rios, lagos e igarapés.
A análise usa dados do Censo Demográfico de 2022 do IBGE e mostra ainda 8,71% coletam água da chuva, 1,19% dependem de carro-pipa e 1,4% obtêm água por formas não especificadas.
No Alto Rio Tapajós (sudoeste do Pará), o garimpo ilegal contaminou cabeceiras desde os anos 1990; em 1997 famílias da Terra Indígena Munduruku mudaram de área por contaminação e, a partir de 2018, a exploração mineral intensificou-se na bacia.
Na Terra Indígena Munduruku, quase 40% dos 9.281 habitantes dependem principalmente de rios, lagos e igarapés; apenas 22% (cerca de 2.000 pessoas) têm acesso a poço, fonte, nascente ou mina, como na aldeia Kaba Rewûn.
Em 2023 a estiagem secou igarapés na região; em 2024 a Amazônia registrou uma seca histórica com níveis dos principais rios nos mais baixos em 122 anos.
“Hoje, as nossas crianças já não têm mais a liberdade de tomar a água do rio. A cor do rio é branca, os peixes estão doentes”, disse Ediene Kirixi, 39 anos, coordenadora da Associação das Mulheres Munduruku Wakoborũn.
Caetano Scannavino, coordenador‑geral do Projeto Saúde e Alegria, afirma que a água dos rios da bacia está “de baixa qualidade, contaminada”; a organização atua em saúde e saneamento no Tapajós desde 1987.
O Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Rio Tapajós tem pontos de abastecimento e saneamento, mas a infraestrutura é insuficiente para atender as aldeias, segundo Raione Lima, advogada da Comissão Pastoral da Terra em Itaituba.
9.281 — habitantes da TI Munduruku
27,38% — indígenas em TIs da Amazônia Legal conectados à rede geral
34,29% — que usam poços, fontes, nascentes ou minas
27% — que dependem de rios, lagos e igarapés
8,71% — que coletam água da chuva
A Associação das Mulheres Munduruku Wakoborũn usou recursos emergenciais para comprar galões e perfurar minipoços artesianos em 12 aldeias; a associação agora cobra do governo instalações de água onde não existem.