77% dos presos na penitenciária onde está Marcola usam psicotrópicos
Relatório do MNPCT detectou 52 de 68 detentos em uso e alerta risco de ‘contenção química’; Senappen nega prática.

Relatório do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (MNPCT) aponta que 52 dos 68 detentos da Penitenciária Federal de Brasília usavam psicotrópicos (cerca de 77%).
O documento afirma que a alta prevalência pode transformar medicamentos em forma de contenção química em vez de tratar causas do sofrimento psíquico; a Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen) nega uso de fármacos para conter presos e diz que medicação é dispensada por indicação clínica com avaliação e acompanhamento profissional.
A inspeção não anunciada ocorreu nos dias 18 e 19 de março de 2026 na Penitenciária Federal de Brasília, onde está custodiado Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como líder do PCC; o relatório registra que Marcola teve aumento de clonazepam após quadro de ansiedade e insônia em atendimento psiquiátrico por telemedicina, enquanto a unidade afirma que ele não apresentou alterações na percepção da realidade nem episódios psicóticos.
Pesquisadores do MNPCT fotografaram uma cartela com 11 medicamentos, dos quais 10 foram identificados, entre eles clonazepam, fluoxetina, clorpromazina, prometazina, carbolitium e amitriptilina; a combinação inclui ansiolíticos, antidepressivos, antipsicóticos e estabilizadores do humor.
Nas entrevistas, detentos relataram insônia, ansiedade, síndrome do pânico, ideação suicida, perda de apetite, apatia, nervosismo, angústia e desespero; o MNPCT relaciona esses sintomas ao isolamento social e estrutural prolongado do regime do Sistema Penitenciário Federal.
O relatório registra apenas nove atendimentos de psicologia entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026 e aponta assistência psiquiátrica precária: há um médico psiquiatra cedido pelo GDF que atende somente no período da manhã, e consultas de urgência dependem de telemedicina.
A perita Carolina Barreto Lemos, do MNPCT, identificou sinais de "hipermedicalização" e afirmou que o relatório não conclui que medicamentos sejam usados deliberadamente para controlar presos, mas alertou para o risco de medicalização servir para lidar com os efeitos do confinamento.
O MNPCT recomenda monitoramento permanente dos impactos do isolamento sobre a saúde mental, adoção de medidas para impedir o agravamento do sofrimento psíquico e identificação precoce de situações de risco, especialmente ideação suicida.