Empresariado vê reciprocidade como ferramenta para negociar com os EUA
Processo aberto há uma semana pode levar meses e, segundo empresários, não deve gerar retaliação concreta antes das eleições.

Empresários veem a abertura do processo de reciprocidade como ferramenta do governo para atrair os EUA à negociação sobre tarifas.
O setor privado avalia que nenhuma iniciativa para reverter o "tarifaço" terá sucesso antes das eleições presidenciais do Brasil e da votação de meio de mandato nos EUA.
O governo abriu o processo de reciprocidade na última quinta-feira, cerca de um mês depois do anúncio do governo Trump de tarifa adicional de 25% para parte das exportações brasileiras; depois houve sanções de 12,5% por alegações de trabalho forçado que atingiram o Brasil entre 60 países.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, pediu que os passos sejam conduzidos com "cautela"; o ministro do MDIC, Márcio Elias Rosa, se reuniu nesta segunda-feira com a Amcham para ouvir o setor privado.
Pelos cálculos do MDIC, 47,3% da pauta exportadora para os EUA está sujeita a alguma tarifa imposta pelo governo Trump; o Brasil também enfrenta tarifas específicas nos setores de aço e automotivo.
A secretaria-executiva da Camex tem prazo de até 60 dias, a contar da última quinta, para apresentar relatório de aderência à lei de reciprocidade; o comitê-executivo da Camex (Gecex) terá igual prazo para deliberar sobre o enquadramento.
Se o Gecex aprovar, poderá ser criado um grupo de trabalho que sugerirá medidas; as propostas terão consulta pública antes da decisão final do Gecex e do conselho estratégico da Camex.
O diretor-superintendente da Abit, Fernando Pimentel, destacou que a lei da reciprocidade foi aprovada por unanimidade no Congresso e que o processo é longo, com consultas ao setor privado, sem significar necessariamente retaliação ampla.
O presidente-executivo da Abimaq, José Velloso, afirmou que a entidade não foi procurada e que não acredita que a aplicação da lei se concretize na prática; ele estimou que o processo levaria entre 90 e 120 dias, no mínimo, para resultar em retaliação.
Paulo Skaf, presidente da Fiesp, afirmou que a iniciativa "fere todos os princípios da boa diplomacia" e que a decisão vai contra empregos de milhares de brasileiros.
25% — tarifa adicional anunciada pelo governo Trump para parte das exportações brasileiras
12,5% — taxa aplicada em sanções por alegação de trabalho forçado
47,3% — parcela da pauta exportadora brasileira para os EUA sujeita a alguma tarifa, segundo o MDIC
60 dias — prazo da secretaria-executiva da Camex para relatório de aderência
60 dias — prazo do Gecex para deliberar após o relatório
90–120 dias — prazo estimado por Abimaq para eventual medida concreta de retaliação
"Não estamos preocupados porque não acreditamos que vá se configurar na realidade", disse José Velloso sobre a aplicação prática da reciprocidade.
Próximo passo formal: a secretaria-executiva da Camex tem até 60 dias para apresentar relatório de aderência; depois o Gecex terá igual prazo para deliberar sobre o enquadramento.